Miastenia Gravis durante o período menstrual

Miastenia Grave Postado em 07/08/2020

“Todo mês meu corpo me pega de surpresa”, escreveu a escocesa Laurna Robertson, atualmente líder estrategista de design de conteúdo do Parlamento Escocês, em seu blog “365 dias de Miastenia”.

Ali, ela publicou posts diariamente durante todo o ano de 2015 (depois disso, ela escreve quando tem algo novo a dizer). “Fisicamente e emocionalmente, sempre fui afetada pelo período menstrual. Mas desde que a Miastenia Gravis apareceu as sensações tolas foram substituídas por algo mais sinistro.”

Em seu post ela conta que, antes de ter Miastenia Gravis, quando jogava futebol tinha medo de menstruar às vésperas de uma grande partida. Isso porque experimentava queda na sua energia e sentia suas pernas pesadas.

Não só: ela também chorava por qualquer coisa, até por aquelas que normalmente não a tocavam.

Como miastênica, dois dias antes de menstruar ela começa a se sentir como se estivesse doente. O peso nas pernas que sentia no passado fica quatro vezes pior, sua ptose se agrava, sua pele fica “devastada”, conforme suas palavras.

Assim como todos esses sintomas surgiram, eles vão embora depois de três dias. “É como se um peso fosse levantado… e sinto-me liberada”. No mês seguinte, tudo volta a acontecer.

Nem todas as pacientes de Miastenia Gravis (MG) se sentem como Laurna Robertson, mas sem dúvidas ela não é a única. E nem é algo descoberto recentemente.

Relação entre Miastenia Gravis e o período menstrual

“Embora ainda não tenha sido comprovado, acredita-se que essa piora ocorra na maior parte das mulheres. Isso acontece por conta do aumento dos níveis principalmente de progesterona, mas também do estrogênio em menor importância”, afirma o Dr. Eduardo Estephan, neurologista do Ambulatório de Miastenia do Hospital das Clínicas (SP) e do Ambulatório de Doenças Neuromusculares do Hospital Santa Marcelina (SP).

Essa explicação justifica porque a maioria dessas miastênicas experimentam melhora dos sintomas a partir do 3º dia da menstruação, quando os níveis de progesterona estão já bem mais baixos.

Em um documento assinado pelo médico neurologista José Lamartine de Assis, ele descreve os estudos sobre a Miastenia Gravis desde os anos de 1950, na Clínica Neurológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

Ciente que existia uma correlação entre a Miastenia Gravis e a menstruação, ele escreveu: “Nossa experiência com os inibidores da ovulação, empregados na tentativa de minorar a piora dos sintomas miastênicos no período pré-menstrual da maioria das miastênicas jovens, foi desapontadora”.

O tempo passou, mas nenhum tratamento conseguiu ser definido para evitar a piora do quadro das miastênicas no período menstrual.

Houve tentativas de estudos com anticoncepcionais que impedem a menstruação. No entanto, eles não foram eficazes para evitar a piora dos sintomas nessas mulheres, como havia observado o Dr. Lamartine.

No entanto, quando a piora é importante, conforme destaca o Dr. Estephan, pode-se aumentar a dose da piridostigmina (medicação para os sintomas da miastenia) durante o período mais crítico.

Com doses maiores da medicação há uma compensação, ao menos em parte, dos efeitos das mudanças hormonais da menstruação.

Segundo estudos…

Em 1998, Lekker e colaboradores conduziram um estudo na Universidade Hebraica de Israel para averiguar o assunto. Eles verificaram que aproximadamente 2/3 das mulheres que menstruam experimentam piora dos sintomas miastênicos 2 a 3 dias antes do início do sangramento.

Essa piora persiste até o 3º dia de sangramento em pelo menos 50% dos casos. E em praticamente 20% a piora é suficientemente importante para que seja necessário aumentar a dose da piridostigmina.

Esse estudo contou com a participação de 42 mulheres, com a doença generalizada e que não estavam na menopausa. Os resultados foram os seguintes:

  • 28 pacientes (67%) relataram exacerbação dos sintomas da Miastenia Gravis 2 a 3 dias antes do período menstrual.
  • 22 dessas pacientes continuaram com sintomas exacerbados até o terceiro dia do ciclo menstrual.
  • 9 dessas pacientes precisaram aumentar a ingestão de piridostigmina nos dias anteriores à menstruação, em razão do agravamento clínico.

Além disso, diferentes tratamentos da Miastenia Gravis, assim como contraceptivos orais, não influenciam o quadro clínico. Dependendo da intensidade da exacerbação pode levar a mudanças no tratamento, conforme critério do médico especialista.

Então, se você tem Miastenia Gravis e se sente pior às vésperas de menstruar, você não está sozinha e nem significa que algo está fora do previsto.

É importante manter seu médico informado desses acontecimentos. Juntos, é possível bolar a melhor estratégia para lidar com esses efeitos da menstruação (com aumento de medicação ou repouso programado, por exemplo).

Fontes:

https://365daysofmyasthenia.wordpress.com/category/menstruation/

http://www.scielo.br/pdf/anp/v44n4/13.pdf

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/9559997

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