Miastenia Gravis e o Coronavírus

Coronavírus Postado em 08/04/2020

Por Dr. Eduardo Estephan*

Sabemos até agora que a maioria dos casos da doença do novo coronavírus (COVID-19) é leve e passível de controle apenas com medicações sintomáticas, como casos leves de gripe e resfriados. Com dados coletados até hoje (04 de abril), sabemos que 80 a 85% dos casos são leves e não necessitam hospitalização, devendo permanecer em isolamento respiratório domiciliar; 15% necessitam internamento hospitalar e menos de 5% precisam de suporte intensivo (de UTI/UCI/CTI).

Líderes de opinião sensatos e os especialistas competentes da área nos alertam para ficarmos atentos, mas não ansiosos, muito menos em pânico. No entanto, o novo vírus é mais perigoso para idosos e pessoas com imunidade comprometida.

Dessa forma, pacientes com Miastenia Gravis têm mais motivos para se preocupar do que a maioria, pois além da COVID-19 ser um possível fator de descompensação clínica da Miastenia (como são os resfriados e gripe), os
miastênicos em sua maior parte fazem uso de imunossupressores, corticoides, e/ou são timectomizados – fizeram cirurgia para retirada do timo (timectomizados não são necessariamente grupo de risco, mas, como não temos dados a respeito, orientamos que ajam como se fossem).

Então os pacientes com Miastenia Gravis que não fizeram a cirurgia do timo e que estejam bem controlados sem fazer uso de corticoide (geralmente prednisona, prednisolona ou deflazacorte) e nem de imunossupressores (geralmente azatioprina, ciclosporina, metotrexato, micofenolato, tracrolimus ou rituximabe) devem apenas intensificar as medidas recomendadas para toda a população:

1) Lavar as mãos frequentemente (por pelo menos 20 segundos cada vez), com água e sabão ou produtos alcóolicos;
2) Evitar tocar em notas e moedas e também superfícies de locais públicos (bancos, maçanetas etc.), ou lavar as mãos após tocá-los;
3) Evitar tocar a face; se tiver que tocar a face, lavar as mãos antes;
4) Não compartilhar objetos de uso pessoal (celular, canetas, computadores), e limpá-los frequentemente (especialmente celular);
5) Dar preferência para ambientes abertos em relação aos fechados e mantenha os ambientes o mais ventilados possível;
6) Evite aglomerações, e, se possível, trabalhe de casa (home office);
7) Cumprimente as pessoas sem contato físico (evite apertos de mão,
beijos e abraços);
8) Vacinação contra gripe (não protege para COVID-19, mas evita mais uma doença que pode confundir os sintomas com COVID-19);
9) Mantenha distância de pessoas com tosse ou espirros – pelo menos 2 metros, mas se possível evite o encontro;
10) Combata fake news (informações falsas) – se informe por fontes confiáveis (por exemplo, Ministério da Saúde, associações médicas, associações de pacientes) – e só passe para frente o que tiver certeza que é confiável.

Para pacientes com Miastenia Gravis ainda não compensada, ou que estejam com a doença compensada mas em uso de corticoide, imunossupressores ou ainda que tenham sido submetidos à timectomia, há algumas recomendações a mais para aumentar a segurança. Claro que as recomendações acima são de extrema importância em qualquer caso, mas estes pacientes nessas condições devem ser mais rigorosos com as medidas, e tomar algumas cautelas mais específicas. Abaixo seguem as orientações para estes casos:

1) Realizar com rigor todas as medidas de prevenção recomendadas para a população (as citadas anteriormente);
2) Evite a todo custo lugares públicos fechados e aglomerações – se tiver que sair de casa utilize máscara (máscaras cirúrgicas, PFF2 ou N95);
3) Evite ambientes médicos e hospitalares:
– Se estiver compensado dos sintomas da Miastenia adie sua consulta;
– Se precisar renovar receita, peça a um amigo ou parente para ir buscar;
– Deixe exames não urgentes para depois; se precisar realizá-los, vá em horários vazios, de máscara, e sempre lave as mãos após tocar superfícies.
4) Deixe as pessoas de convívio próximo (família, vizinhos, colegas de trabalho) saberem de suas restrições, para que sejam mais cuidadosos com a higiene, e evitem te encontrar caso tenham sintomas da doença;
5) Evite viagens internacionais, e também para locais do país com maior número de casos, principalmente os de transmissão comunitária. Evite também contato com pessoas que retornaram há menos de 14 dias dos locais com situação mais grave da pandemia;
6) Diminua as chances de precisar de cuidado hospitalar:
– Tome suas medicações corretamente, mantenha-se descansado, com alimentação, hidratação e sono em dia;
– Evite ao máximo utilizar medicações novas que nunca tomou quando não forem 100% seguras para Miastenia.

Quanto a tratamento, ainda não há medicações específicas para o novo coronavírus. Esforços estão sendo feitos para encontrar uma vacina e um tratamento efetivo, sendo que aproximadamente 20 estudos de ensaios clínicos estão em curso ou já finalizaram. Ainda sem resultados confirmatórios, dentre os outros tratamentos pesquisados, podemos citar: hidroxicloroquina/cloroquina (associada ou não a azitromicina), redemsevir, lopinavir/ritonavir, favipanivir, transfusão de plasma de pacientes curados, imunoglobulina humana endovenosa e oseltamivir.

A cloroquina tem recebido muito destaque, provavelmente por já ser uma medicação muito conhecida, de preço relativamente barato e estar facilmente disponível. No entanto não há recomendações para uso da droga em casos de COVID-19, e o que há até agora de evidência científica permite apenas dizer que é uma medicação que vale a pena ser estudada a fundo para isso, e que se deve considerar seu uso apenas em casos mais graves como um uso compassivo (o que seria parecido como um estudo de um caso só, onde o paciente, junto à equipe médica, assume o risco de a droga não funcionar ou causar efeitos colaterais).

Os pacientes devem estar cientes de que alguns desses medicamentos, principalmente a cloroquina/hidroxicloroquina, podem piorar a Miastenia. Dessa forma deve-se evitar usá-los sem a indicação médica específica. Se as evidências mudarem e surgirem provas consistentes que há benefícios para o tratamento do COVID-19, esses tratamentos devem ser usados ​​sob rigorosa supervisão médica, sendo pesado os riscos e benefícios em cada paciente.

De qualquer forma, embora não há espaço para negligência, também não há motivos para pânico, nem tão pouco ansiedade exagerada. Lembrando que ansiedade e estresse são outros fatores de descompensação da Miastenia. As infecções respiratórias devem ser sempre evitadas em miastênicos, mas essa é semelhante a outras que a maioria dos pacientes já passou. Devemos ficar vigilantes para não expor ao vírus aqueles que são mais vulneráveis, e devemos agir com cautela para não sobrecarregar o sistema de saúde no momento de pico da epidemia.

Fontes:

coronavirus.saude.gov.br e www.infectologia.org.br – 31/03/2019
Jacob S, et al. Guidance for the management of myasthenia gravis (MG) and Lambert-Eaton myasthenic syndrome (LEMS) during the COVID-19 pandemic. J
Neuro Sciences. March 25, 2020. Pre-proof DOI: https://doi.org/10.1016/j.jns.2020.116803.

O Dr. Eduardo Estephan é médico neurologista, professor do Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina Santa Marcelina e atua no Grupo de Miopatias e Ambulatório de Miastenia do Hospital das Clínicas/FMUSP, no Ambulatório de Doenças Neuromusculares do Hospital Santa Marcelina.

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